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A REALIDADE SOCIOPOLÍTICA DO RIO DE JANEIRO: REFLEXO DAESTRUTURA DE EXCLUSÃO DO ESTADO BRASILEIRO

Autor: Jorge Ferraz
Advogado ‒ Especialista em Direito de Família e Relações Humanas
Pesquisador em Justiça Social e Mediação de Conflitos

Resumo: O presente artigo analisa a realidade sociopolítica do Rio de Janeiro sob uma perspectiva
estrutural, evidenciando como a violência, a informalidade e a exclusão social são reflexos de um
modelo estatal que privilegia a repressão em detrimento da promoção de políticas públicas
emancipatórias. A partir de uma abordagem interdisciplinar, fundamentada em autores como Jessé
Souza, Johan Galtung e Vera Telles, busca-se demonstrar que o Estado brasileiro exerce uma
presença seletiva: ausente no fomento ao desenvolvimento humano e econômico, mas fortemente
presente na coerção e no controle social das populações periféricas. Conclui-se que a superação
desse quadro demanda uma reformulação profunda das políticas públicas, voltadas ao
empreendedorismo, à educação e à justiça social.
Palavras-chave: exclusão social; políticas públicas; violência estrutural; Rio de Janeiro; Estado
brasileiro.

  1. Introdução
    A cidade do Rio de Janeiro, símbolo da diversidade cultural e social do Brasil, também representa
    um retrato das desigualdades históricas que marcam a formação do Estado brasileiro. A
    coexistência entre zonas de extrema riqueza e territórios de profunda vulnerabilidade social
    evidencia a persistência de um modelo político excludente. Em vez de promover o desenvolvimento
    humano e econômico das comunidades, o poder público frequentemente opta por políticas de
    repressão, negligenciando a criação de oportunidades sustentáveis.
    O objetivo deste artigo é discutir, sob perspectiva acadêmico-científica, como a realidade social do
    Rio de Janeiro resulta de um projeto político de exclusão, que transforma as comunidades em alvos
    de controle estatal e não em sujeitos de políticas emancipatórias.
  2. Fundamentação Teórica
    A análise das desigualdades urbanas no Brasil requer o diálogo com autores que abordam a
    estrutura de dominação e exclusão social. Jessé Souza (2017) argumenta que o país é regido por
    uma elite que perpetua privilégios e bloqueia o acesso das classes populares aos meios de ascensão
    social. Essa lógica se manifesta na criminalização da pobreza, fenômeno recorrente nas favelas
    cariocas.
    Vera Telles (2010), por sua vez, aponta que o Estado exerce uma presença seletiva: é ausente na
    provisão de direitos básicos ̶ como saúde, educação e mobilidade ̶, mas fortemente presente na
    coerção e no policiamento ostensivo. Essa dualidade cria o que Loïc Wacquant (2008) denomina de
    ‘Estado penal’, em que a miséria social é tratada como questão de segurança, e não de justiça social.
    Complementarmente, Johan Galtung (1969) introduz o conceito de violência estrutural, que ocorre
    quando as instituições impedem indivíduos de satisfazerem suas necessidades fundamentais. No
    caso brasileiro, a ausência de políticas de fomento ao empreendedorismo, ao microcrédito e à
    economia solidária configura uma forma de violência institucionalizada, que perpetua a
    dependência e a marginalização.
  3. Análise Crítica: O Estado e a Reprodução da Informalidade
    O Rio de Janeiro é exemplo emblemático de uma gestão pública que prioriza o enfrentamento
    armado em detrimento da inclusão econômica. O combate ao tráfico de drogas, frequentemente
    apresentado como estratégia de segurança, resulta em ocupações militares que desorganizam o
    tecido comunitário e não atacam as causas reais da criminalidade: o desemprego, a falta de
    oportunidades e a carência educacional.
    A ausência de programas consistentes de incentivo ao empreendedorismo popular e à formalização
    de pequenas atividades econômicas reforça a dependência das populações periféricas em relação a
    economias informais ̶ e, em alguns casos, ilícitas. A ‘boca de fumo’ surge, assim, como
    alternativa de subsistência em um contexto de abandono estatal, e não apenas como escolha
    moralmente desviada.
    A falta de investimento em educação, transporte, alimentação e saúde demonstra que o Estado atua
    como produtor da desigualdade que diz combater. Essa contradição reforça o ciclo de violência e
    exclusão, legitimando a presença policial ostensiva e a repressão contínua das comunidades. O
    resultado é uma estrutura de cidadania parcial, na qual o morador da favela é tolerado como mão de
    obra, mas excluído como sujeito de direitos.
  4. Conclusão
    A realidade do Rio de Janeiro, longe de ser um fenômeno isolado, reflete a estrutura de exclusão e
    controle social do Estado brasileiro. A política de repressão sobre as comunidades, a negligência na
    criação de oportunidades produtivas e a ausência de políticas de fomento econômico configuram
    um modelo de governança que reproduz a desigualdade em vez de combatê-la.
    Superar esse quadro exige um redirecionamento estrutural das políticas públicas, substituindo a
    lógica punitiva pela emancipatória. O investimento em educação, empreendedorismo comunitário,
    habitação digna e transporte público acessível é condição necessária para a construção de uma
    sociedade mais justa e pacífica. O Rio de Janeiro, nesse sentido, é não apenas um desafio, mas
    também um espelho das escolhas políticas que moldam o destino do país.


    Referências Bibliográficas
    GALTUNG, Johan. Violence, Peace, and Peace Research. Journal of Peace Research, v. 6, n. 3, p.
    167-191, 1969.
    SOUZA, Jessé. A Elite do Atraso: da escravidão à Lava Jato. Rio de Janeiro: Leya, 2017.
    TELLES, Vera da Silva. A cidade nas fronteiras do legal e ilegal. São Paulo: Argvmentvm, 2010.
    WACQUANT, Loïc. As Prisões da Miséria. Rio de Janeiro: Zahar, 2008.
    FERNANDES, Florestan. A Revolução Burguesa no Brasil. São Paulo: Globo, 2005.
    BOAVENTURA DE SOUSA SANTOS. Se Deus fosse um ativista dos direitos humanos. São
    Paulo: Cortez, 2013.

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